A grande obra da carne e Valdir Rocha e a persistência do mistério

Lutero
14 de setembro de 2017
Rastros de mentiras e segredos
14 de setembro de 2017

A grande obra da carne

“Desde cedo o tríptico me desperta atenção. Igualmente a suíte. Aos poucos fui percebendo que meus grandes mestres sempre foram renascentistas. Não os poetas, mas antes os compositores e artistas plásticos. Eu ambicionava trazer para o poema aquelas estruturas. Este truque alcançado cria uma astuta miragem: o plano épico.  Na montagem das suítes eu recortei diversas formas poéticas: tercetos, sonetos, odes, provérbios, prosa poética, aforismos… A grande obra da carne é uma soma dessa fonte de ilusionismos. Sua estrutura também revela distintos comportamentos da linguagem poética: extensa suíte, atípico enredo teatral, biografia psicografada. Como todos os meus livros, também este reflete minha natureza andarilha, o que inclui as colagens e vinhetas que atrelo ao sumo dessa aventura criativa. A grande obra da carne é um tríptico repleto de truques alquímicos que sigo descobrindo, sempre alheio à intransigência das classificações.” [Floriano Martins]

 

Valdir Rocha e a persistência do mistério

“O movimento perpétuo da arte é a ambiguidade. O criador é um fomentador do caos e não um apaziguador de instintos. No caso de Valdir Rocha (Brasil, 1951) seria melhor dizer um duplicador do caos, o que me leva a uma observação de Juan-Eduardo Cirlot de que o tema da duplicação é um símbolo da consciência, um eco da realidade. Uma fidelidade ao inconsciente? Uma crença no instinto como a substância primordial? O que observo defende um vislumbre meu – não me preocupa sinceramente que seja certeiro o disparo –, de que as possibilidades de assimilação da realidade na obra de Valdir Rocha sejam determinadas por sua imaginação exaltada em busca do outro. Neste sentido, ele não almeja reconhecer-se senão na tridimensionalidade que acredita ser a única forma de convívio possível entre os seres. Valdir Rocha é um escultor por princípio. E mais do que isto. Não lhe interessa a escultura estática, a imponência de uma forma magnificada por um simbolismo estatuário. Não duvidaria se ele sonhasse com suas esculturas ganhando vida, e nos dando aula de solidariedade. Não há laços possíveis entre a realidade e o desejo. Porém a arte é o único privilégio com que contamos no sentido de indicar uma conexão ulterior, uma ligação entre o que imaginamos ser e o que jamais seremos.” [Floriano Martins]

 

Sobre o autor

Floriano Martins (Brasil, 1957). Poeta, ensaísta, tradutor e editor. Dirige a Agulha Revista de Cultura e a ARC Edições. Através deste selo, em coedição com a Editora Cintra, de São Paulo, acaba de lançar a coleção “O amor pelas palavras”, pela Amazon, com um catálogo previsto, até dezembro deste ano, de 20 títulos publicados. Estudioso do surrealismo e de literatura hispano-americana, destaca-se ainda como crítico de arte.

 


Serviço

Lançamento no miniauditório 520, dia 27/9, às 18h30.

A FLI7 acontece de 27 a 30 de setembro na UNI7.